
A jornada de Maria Aparecida: de 50 anos sem sobrenome
A história de Maria Aparecida Pereira, uma ajudante de cozinha de Piracicaba (SP), é um exemplo tocante de luta e superação. Após passar cinco décadas sem filiação ou sobrenome registrados em sua carteira de identidade, Maria, que foi adotada quando criança, tomou a iniciativa de buscar apoio jurídico.
Ela se deu conta de que seu RG não apenas carecia dos nomes de seus pais biológicos, mas também estava registrado com o sexo masculino. Isso a fez procurar a Defensoria Pública do Estado de São Paulo (DPE-SP) para regularizar sua situação. “É uma sensação boa saber a quem você realmente pertence”, disse ela ao se referir à possibilidade de atualizar seus documentos.
Maria teve que enfrentar a dura realidade de mais de 2.381 pessoas em Piracicaba que, assim como ela, não possuem o nome do pai registrado na certidão de nascimento. Sua história é um chamado à ação para a sociedade e às autoridades sobre a importância do reconhecimento da paternidade.

Importância do registro de paternidade
O registro de paternidade é um direito fundamental que proporciona diversas garantias legais e sociais. Este registro não apenas implica um nome, mas também fornece direitos como:
- Acesso a benefícios sociais: Uma criança registrada corretamente tem direito a benefícios como pensões, heranças e até acesso a serviços de saúde.
- Identidade e pertencimento: Saber quem são os pais dá às crianças uma identidade, aumentando sua autoestima e sentido de pertencimento a uma família.
- Responsabilidade jurídica: O reconhecimento formal da paternidade traz responsabilidades tanto para os pais quanto para os filhos, estabelecendo um vínculo legal.
Como a Defensoria Pública atua em casos de falta de filiação
A Defensoria Pública desempenha um papel crucial na mediação de casos onde a filiação não está clara. A assistência para obtenção de testes de DNA é um dos serviços oferecidos. Nesses casos, a defesa dos direitos das crianças e dos pais é priorizada, garantindo que todos tenham acesso ao reconhecimento legal.
Maria explicou que, sem o auxílio da Defensoria, o custo dos exames de DNA seria inatingível para ela e sua mãe adotiva. Com o programa, não só a união entre mãe e filha será formalizada, mas também a possibilidade de Maria mudar seu nome para refletir sua verdadeira identidade familiar.
O impacto do registro civil na vida das pessoas
Ter um registro civil completo é essencial para que um indivíduo possa ter uma vida plena e com direitos garantidos. Entre as consequências de não ter esse registro devidamente feito estão:
- Desafios no acesso a serviços públicos: Na ausência de um registro, acesso a escola, saúde e outros serviços se torna muito mais difícil.
- Vulnerabilidade social: Pessoas sem registro estão mais expostas a diversas formas de discriminação e exploração.
- Barreiras na vida profissional: É comum que a falta de um sobrenome impacte negativamente na hora de buscar emprego ou abrir contas bancárias.
Campanhas de reconhecimento de paternidade no Brasil
Iniciativas como o mutirão “Meu Pai Tem Nome” têm se mostrado muito eficazes no Brasil. Essa campanha visa facilitar o reconhecimento da paternidade e promover a regularização dos registros civis das crianças. Desde 2016, Campinas, junto com outros municípios, já registrou aproximadamente 10.652 casos sem o nome do pai. É um número alarmante que mostra a necessidade de ações efetivas.
A coordenadora da Defensoria Pública de Piracicaba, Carolina Brambila Bega, enfatizou que o reconhecimento da paternidade é fundamental não apenas para garantir direitos, mas também para fortalecer vínculos familiares, essencial para o desenvolvimento emocional e psicológico da criança.
Histórias de pessoas sem sobrenome em Piracicaba
Além de Maria, muitas outras pessoas em Piracicaba enfrentam a mesma realidade. A história de Andréia Pereira Barbosa, por exemplo, revela os desafios que mães enfrentam para incluir o nome do pai no registro de seus filhos. Andréia tentou várias vezes reconhecer a paternidade de seu filho mais velho, mas o pai se recusou a assumir essa responsabilidade. O impacto emocional da situação é evidente, uma vez que a criança cresce sem entender a ausência do pai no registro.
Fabiana Fernanda do Prado Rodrigues, outra mãe, enfrenta dificuldades semelhantes. De seus quatro filhos, apenas dois têm o nome do pai em suas certidões. A insegurança sobre o futuro dos filhos e a lutar por um registro adequado é uma constante em sua vida. Essas experiências mostram como a falta de um sobrenome pode afetar não apenas a identidade, mas também a estrutura familiar.<\/p>
Mutirão ‘Meu Pai Tem Nome’ e suas implicações
O mutirão “Meu Pai Tem Nome” está programado para oferecer atendimentos em mais de 60 postos no estado de São Paulo e visa acolher as pessoas que buscam regularizar a situação dos filhos. As inscrições para o casamento, realização de exames de DNA gratuitos, reconhecimento da paternidade e até acordos de pensão alimentícia são algumas das facilidades oferecidas durante os eventos.
Inscrição para testes de DNA: como participar
As inscrições para participar do mutirão se encerram no dia 30 de julho. Os interessados podem se inscrever através do site da Defensoria Pública de São Paulo. Durante o evento, o atendimento ocorrerá no dia 1º de agosto. Portanto, é essencial se planejar e garantir a participação para aproveitar esses serviços cruciais.
Direitos garantidos com o reconhecimento de paternidade
O reconhecimento de paternidade garante direitos que são fundamentais para a construção de uma vida com dignidade. Dentre os mais importantes estão:
- Direito à herança: Ao ser reconhecido, o filho adquire direitos sobre heranças, que podem impactar seu futuro financeiro.
- Alimentação e cuidado: O reconhecimento formal permite que a criança tenha acesso a pensão alimentícia e a cuidados necessários por parte do pai.
- Acesso a serviços públicos e benefícios: Sabendo quem são seus pais, a criança tem direito à saúde pública, educação gratuita, entre outros serviços essenciais.
Desafios enfrentados por pessoas sem registro completo
As dificuldades que pessoas como Maria Aparecida enfrentam são imensas. Governmentais que tentam agir na regularização são muitas vezes obstruídos pela falta de informação e pelo desamparo social. Isso leva a uma sociedade onde muitos ainda vivem à margem devido à ausência de um documento que deveria ser garantido.
Maria Aparecida sintetiza a luta de muitos: “Espero até o final do ano ter uma resposta e mudar minha vida”, expressando não apenas sua esperança, mas refletindo o desejo de um futuro mais justo e igualitário para todos que atravessam desafios semelhantes.